Hoje na 2ª divisão, Blackburn já foi rico, bateu gigantes e venceu Premier League

Ajuda financeira de magnata inglês alavancou Blackburn Rovers no início dos anos 90. Com time histórico, clube foi campeão nacional em 1995

Depois que o futebol na Inglaterra passou por uma reformulação drástica, no início dos anos 90, quando a Premier League foi criada em 1992 com o objetivo de melhorar a saúde financeira dos clubes locais, apenas cinco times, em 23 anos, conseguiram ser campeão do Campeonato Inglês. São eles: Manchester United, com incríveis 13 conquistas, Chelsea, com quatro, Arsenal, com três, Manchester City, com duas, e, “perdido” em meio aos gigantes, Blackburn Rovers, com um único, porém histórico, título vencido. Um feito jamais esquecido, ocorrido há exatamente 20 anos.
Os times mais tradicionais da pequena lista de campeões da Premier League não assustam pelo fato de ali estarem, uma vez que eles sempre iniciam a competição como favoritos e, de fato, alguns deles acabam chegando ao final da temporada brigando pelo posto de campeão. Mas, quando o nome “Blackburn Rovers” aparece lado a lado com os campeões mais tradicionais do país, há, sim, muita estranheza por parte do público mais jovem, já que hoje em dia o clube da cidade de Blackburn joga a English League Championship, a segunda divisão da Inglaterra, e passa longe de ser aquele time memorável do início dos anos 90.
“Como o Blackburn Rovers foi campeão inglês, em 95?”, devem se perguntar aqueles que não vivenciaram a evolução do time na época. A resposta está em Jack Walker, rico empresário britânico falecido em 2000, aos 71 anos. Walker, que era milionário e torcedor do Blackburn, se tornou presidente do clube em janeiro de 1991 e, a partir daí, passou a injetar dinheiro pesado na instituição que amava. Nesse período da história, o clube ainda disputava a segunda divisão do futebol inglês. Walker, que hoje tem estátua na frente do estádio dos Rovers, sonhava em recolocar o time do coração no topo do futebol britânico.
Logo nos três primeiros anos à frente da agremiação, Walker investiu cerca de 25 milhões de libras somente em novos jogadores, quebrando por duas vezes o recorde britânico de contratação mais cara de um jogador de futebol. Primeiro, em 1992, comprou do Southampton o atacante e lenda do futebol inglês Alan Shearer, por 3.6 milhões de libras. Depois, em 1994, contratou Chris Sutton junto ao Norwich por 5 milhões de libras. É claro que esses dois valores seriam baixos para o padrão de transferências de hoje. Mas, há mais de vinte anos, eram números altos.
Quando Jack Walker comprou o Blackburn Rovers, em 91, metade da temporada 1990/91 da segunda divisão já estava finalizada e o time se mantinha um pouco acima da zona de rebaixamento à terceira divisão. No fim da campanha, os Rovers escaparam do descenso graças a um suado 19º lugar. Don Mackay, à época técnico do Blackburn, inicialmente fez uso do dinheiro de Walker apenas para evitar a queda do clube. Para 1991/92, entretanto, a ideia do treinador e dos dirigentes era muito mais ambiciosa: formar o time que subiria à primeira divisão. O sonho era disputar a então recém-criada Premier League.
O começo da temporada 1991/92, porém, não foi como planejado. Mal na English Championship, Walker viu a necessidade de evolução e foi ao mercado contratar um novo técnico, alguém que iria liderar o novo projeto dos Rovers. Então, em outubro de 1991, desembarcou em Ewood Park Kenny Dalglish, que oito meses antes estava treinando o Liverpool, clube onde é ídolo. Dois meses depois de assumir o comando do Blackburn, Dalglish deu outra cara ao time e o colocou na liderança da segunda divisão. Até o fim da campanha, no entanto, a equipe Alviazul teve muitos altos e baixos e a classificação aos playoffs da Championship só veio nas últimas quatro rodadas. Mas o ímpeto dos Rovers era tanto que não teve outro jeito: vitória sobre o Leicester City em Wembley e vaga garantida na Premier League 1992/93. O Blackburn Rovers estava, enfim, de volta à elite depois de 27 anos.
O início do “novo” time na primeira divisão da Inglaterra foi muito promissor. Recém-contratado para estrelar o time de Dalglish, o atacante Alan Shearer, então com 22 anos, começou arrepiando e mostrando pelo qual motivo os gigantes Manchester United e Liverpool tinham interesse em contratá-lo. Em seus dez primeiros jogos na Premier League 92/93, Shearer anotou dez gols. O time como um todo também encantava e a liderança da competição chegou para os Rovers um mês depois do início da liga. Desde 1966 que o Blackburn não sabia o que era ser líder da primeira divisão da Inglaterra. A segunda metade da temporada 1992/93, porém, foi péssima para os Rovers, já que, em dezembro de 92, o astro Alan Shearer rompeu os ligamentos do joelho e passou a não ter mais condições de jogo até o final da temporada. Sem sua referência, o Blackburn terminou a Premier League 92/93 em quarto lugar.
Fora de campo, a temporada 1993/94 se iniciou com uma verdade para os Rovers: apesar da quarta colocação na campanha anterior, o novo projeto, sustentado pelo dinheiro de Jack Walker e pelo talento das novas contratações, estava no caminho certo. Dentro de campo, no Campeonato Inglês, o time começou como coadjuvante, já que o poderoso Manchester United disparou na frente logo no início da competição, abrindo 15 pontos de vantagem em janeiro. No decorrer do campeonato, United e Rovers se aproximavam e se distanciavam na tabela. Por fim, o time comandado pela lenda escocesa Alex Ferguson abocanhou o título inglês, com oito pontos à frente do vice-campeão Blackburn Rovers.
TEMPORADA DO TÍTULO HISTÓRICO
Depois de um quarto lugar e um vice-campeonato nos dois primeiros anos após o retorno à primeira divisão do futebol inglês, estava na hora de o Blackburn conquistar algo mais valioso, e isso significava ser campeão inglês após 81 anos de espera. A concorrência pelo título da Premier League era, como sempre, fortíssima, pois os Rovers tinham pela frente o então bicampeão inglês Manchester United, o Liverpool do jovem e promissor Steve McManaman, Newcastle, Tottenham e Nottingham Forest. Por outro lado, Jack Walker acreditava em suas convicções, principalmente após ter contratado o atacante Chris Sutton, que vinha muito bem no Norwich, para fazer uma dupla de ataque fenomenal com Alan Shearer.
O time do técnico Kenny Dalglish, fortalecido após boas contratações, como a do goleiro Tim Flowers e dos meio-campistas David Batty e Paul Warhurst, iniciou com o pé direito a temporada 1994/95. Nos sete primeiros jogos da Premier League, o time permaneceu invicto e o resultado iminente foi a liderança da liga. O Blackburn, no entanto, ainda não passava a imagem de um time totalmente sólido, capaz de liderar o campeonato do início ao fim. Mas, alguns meses depois do início da temporada, exatamente em outubro de 1994, os Rovers engataram a primeira marcha e não pararam mais. Em novembro, o time comandado por Dalglish estava a ponto de bala, não dando chances para ninguém. Foram 11 vitórias seguidas e somente um empate da equipe até janeiro de 1995, ano em que o clube chegaria à glória histórica.
Antes de assegurar o título da Premier League na última rodada – mesmo após perder por 2 a 1 de virada para o Liverpool em Anfield Road -, o Blackburn sofreu uma queda de produção em fevereiro de 95 e deixou o Manchester United assumir a liderança da liga. Mas quando o destino já está traçado não adianta nenhum esforço extra. Após uma derrota preocupante para o Tottenham e alguns tropeços nas partidas finais, os Rovers chegaram à rodada derradeira da Premier League com uma vantagem de apenas dois pontos para o segundo colocado Manchester United. O time de Dalglish tinha o Liverpool, fora de casa, enquanto os Red Devils enfrentariam o West Ham. A conta era simples: para o Blackburn ser campeão, bastava uma derrota do United. Um empate do time Alviazul ante o Liverpool não adiantaria se o Manchester vencesse. No fim, o United empatou em 1 a 1 com o West Ham e o Rovers, mesmo perdendo para o Liverpool, ficaram com o título do Campeonato Inglês da temporada 1994/95.

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