Adriano: fama ou Vila Cruzeiro?

Adriano teve seu contrato rescindido no Atlético Paranaense após faltar duas vezes nos treinamentos.
Encontrei um texto por mim escrito em 17 de março de 2010. Portanto há QUATRO anos!
Incrível como as coisas continuam as mesmas. A tal “síndrome do fracasso neurótico” – ou a interminável busca de si-mesmo – perdido em algum castelo de Milão e longe da Vila Cruzeiro.
Na ausência do sentido, acompanhem, abaixo, a reflexão de 17/03/2010 -
Que Deus perdoe estas pessoas ruins
Escrito por João Ricardo Cozac
Qua, 17 de Março de 2010
 
Os últimos dias na vida de Adriano não foram nada fáceis. Após brigar com sua namorada, faltar aos treinamentos, ter o nome associado ao álcool e às denúncias de comprar motos para traficantes, o atacante do Flamengo mostrou sua indignação ao comemorar o gol marcado na vitória diante do Vasco. Adriano usava uma camiseta branca por baixo do uniforme com os dizeres “Que Deus perdoe estas pessoas ruins”.
Certamente o amigo leitor tem a mesma dúvida do colunista. Afinal, a quem Adriano pede a clemência divina? Aos jornalistas, traficantes, pessoas que tentam desviá-lo do bom rendimento dentro de campo, profissionais que estão ao seu lado para ajudá-lo a interagir socialmente de forma mais positiva ou, com a maestria de Fernando Pessoa, no poema “A Prece”, o desabafo culposo de um caminho que parece não ter mais volta: “Senhor, livra-me de mim”.
O companheiro de ataque, Vagner Love, também ganhou as manchetes. Love foi flagrado em um baile funk ao lado de traficantes fortemente armados no morro da Rocinha e, ao ser abordado por repórteres, confirmou que tem muitos amigos por lá e que sente saudades de todos que fizeram parte de sua infância.
Uma outra dúvida recorrente para muitos: por que estes rapazes – que recebem rios de dinheiro e tem total possibilidade de construir novas referências de mundo – insistem em manter o elo com o passado? Na teoria, a resposta não me parece difícil. A identidade desta garotada está presa ao ambiente psicossocial da infância. Não conseguem, de forma alguma, estabelecer novos vínculos de relacionamento sem a necessidade de cultivar as antigas e pouco construtivas amizades.
Estes meninos cresceram ouvindo tiros de fuzis, corre-corre no morro, briga entre gangues de traficantes e uma realidade diametralmente oposta àquela aberta enquanto nova possibilidade de vida. A fama e o dinheiro não necessariamente obrigam a mudança de comportamento. Pelo contrário: estes dois perigosos ingredientes podem ser facas bem afiadas no (sub)mundo destes atletas constituídos por corpos de aço e fincados em bases de barro.
Numa entrevista a um programa esportivo na televisão, Adriano confessou seu amor pelos carros e relógios. Mostrando um lindo Rolex de diamantes e atestando manter três carros na Itália e outros três no Brasil, o jogador se torna alvo perfeito para os sequestradores. Será que este iminente perigo colabora para que o atleta mantenha uma boa política de relacionamento com os amigos do morro e sua imagem associada aos manos? Afinal, o poder parece ter mudado de mãos neste país. E não é de hoje.
Ao som do Rap “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar” – o abismo entre a luxúria e pobreza agoniza o coração de todos os desavisados que insistem em viver os devaneios de um mundo que, a olhos vistos, tenta afastá-los de seus elos de legitimidade presos em alguma favela do passado.
Que Deus perdoe estas pessoas ruins – mesmo!

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